A musa que delirou Camões a versar, justo alcance, o valor
imenso de uma pátria remota, encontrei hoje erguendo apreços nas
convolutas colunas do meu peristilo interior. Havia, naquele
pátio, uma lira dançante que tocava, leve e ocasionalmente, os
pilares em redor. A sua fuligem ia, pouco a pouco, desenhando
uma álacre silhueta humana — macho robusto — que persigo
pensativamente, aguardando o nome. O que me tentou transmitir
aquela figura, ou o movimento que a inspirou? A minha mente
inventa teorias nas quais não creio, mas são tantas, que prefiro
abraçar uma do que deixá-las fugir e ficar só, perplexo e
singelo. Esta é a rotina do pós-sonhar: tentativas incessantes
de compreender o abstrato; angústias e espasmos atrozes;
bramidos inaudíveis a ressoar nas guaridas da minha alma limosa;
suportar a ponte em desabe sem conhecer jamais o seu além. Uma
mensagem em fuga, lesta e distante, estendida em paralelo ao
horizonte, repousando… Verdades inéditas.
No cadeirão, recumbente, onde pernoita a minha aflição cansada,
o meu dorso palpita dormências que desfraldam a cabeça nula
sobre o pescoço inerte. Olvido critérios, fundamentos, até
paradoxos, de modo a higienizar a mente e torná-la aérea:
preparativos vãos. Um vórtice de pensamentos urge repentinamente
e erradica todo o aprumo, como o vidro que se quebra de tanto
lhe passar o pano.
Agarrei-me desesperadamente à ideia de que a tal silhueta
representava a bravura do espécimen Lusitano. Não perdurou, sou
franco, e fora abafada por outra mas cintilante: o vulto da
perfeição. Afinal, algo tão fósmeo, discreto e inalcançável,
somente o expoente de todas as qualidades; algo imperceptível,
latente ao quotidiano, que não se avista senão em sonhos.