Um distribuidor de panfletos surgiu à rua onde eu estendia o
olhar. Não os oferecia a nós, mortais, mas sim às estantes
convenientes dos estabelecimentos vulgares. Uma lavandaria,
predileta e ideal, ocupada por mim e por outro alguém, uma senil
senhora, vagarosa no passo, contudo lesta na leitura de uma obra
ignota ao meu campo de visão. Somente a capa escarlate, palavras
vãs e questionáveis interrompidas pela azáfama das máquinas em
ofício.
O homem, a passos calmos, manuseava atribuladamente os panfletos
e colocava-os, com bastante zelo, na humilde prateleira à minha
esquerda. Lançava sorrisos amistosos, talvez por cortesia, que
suspiravam um certo orgulho, a despeito da movimentação irritada
dos seus braços. Ao completar a tarefa, sumiu, como se livre de
qualquer inquietação, a passos mais constantes. Não ousei
revirar-me, apenas cogitei, olhando ocasionalmente pela janela
larga, sobre a sua aparição. Quão involuntariamente tácita, quão
obstinadamente leviana aquela alma brusca e passageira.
E eu a restar… Ali… Frívolo e paciente, como se domesticado por
uma enfermidade terminal, mirando os trapos em remoinho penoso,
sendo torturante na ida demorada, sem sequer atender às suas
súplicas… Porque o temporizador contava ainda uns minutos
enfadonhos. O aborrecimento é, talvez, acredito, uma leve
tortura que, com o prolongar das horas, se desenvolve e nos
endoidece.
Desejo, firmemente, ser um trapo, uma veste, um coturno
rejeitado e ímpar, algo que se possa introduzir naquelas
maquinetas. Quero-me num dos vórtices, enxaguado e asseado,
lastimando enxaquecas e o sobreaquecimento do meu tecido.
Quero-me em prantos mudos, martirizado por qualquer ser símil ao
meu, ridículo e volátil, sobretudo embevecido pelas minhas
preces inválidas de roupa estúpida. Todavia, o que
verdadeiramente anseio é que o distribuidor volte, numa visita
rápida, e me aviste no rodopio; que me sorria, não obstante a
intenção, e reconheça, na moção repetida do meu corpo, a mesma
essência do meu ser que se aborrecera.