back

Trechos, excertos, vagas expressões…



Trechos, excertos, vagas expressões… Tudo isto me acude, mas não formulo, não componho, nunca conto, para além de meras e sós partes de um todo olvidado, inexistente. Não são partes, são despadaços. Ventilo episódios, diminutamente amplos e, no entanto, incompletos.
Heis o que hoje me ocorreu: "Recostado na terra batida que ladeia a sepultura, mirando o firmamento escurecido - as estrelas e o fulgor ambíguo da lua, vazia lua cheia -, tirito empedernidamente, como se me implodisse cada frívolo órgão, um por sua vez, até me restar somente o coração fraco de agonia. Neste momento, a convalescença é-me um voo longínquo… E eu, além de pedra, não me lembro alado.”
Qual personagem encenava aquela fantasia, nem eu, que a vislumbrei, conheço. Todavia seria, deveras, uma triste criatura.
Passo vagos momentos sem entender sequer o dilatar da ação e, no jazigo da mente, já enterrara nobremente aquele espaço. Mais vale, então, para a minha sanidade espiritual, que enfoque a realidade, o bel comum. Pois que o faço, absorvendo sensorialmente a vera ação — uma senhora cruza as ruas, vejo-a da janela. Arregalam-se-me os visos… É tão esbelta. A sua andadura atingira o apogeu da donaire, distinguia-se pela graciosidade e tornara-me, por espanto e sortilégio, mais novo e glabro.
Que é de um homem sem paixão? Paralelamente, que é de um homem cuja paixão esbarra, mansamente e sem probabilidade de êxito, numa conduta tão firme? Em ambos os casos, cada esforço é uma veleidade, porém, no segundo, os caprichos são mais facilmente dissolvidos.
Saberei eu melhor que o sóbrio, se os caprichos não passam de centelhas de uma máquina desengatada; ou que a tal conduta firme não é senão um freio vitorioso a quedar no motor do bêbedo… Bem, que hei-de inventar acerca da paixão?, tão natural parasita. E o homem, tão naturalmente à ventura, portando-a.
Sendo a paixão, nо meu entender, parasita, resumir-se-á o homem ao seu diverso habitat; servir-se-á o bicho da sua alma, ou do seu coração hermético? Desisto. Não me é favorável indagar, per contra, só invento premissas labirínticas e interminantes. Oh, infortúnio, hás de cessar! A desgraça é, por vezes, inevitável e de nada vale repudiá-la, porquanto apenas se agravará. Referi-la é, simili modo, desvantajoso e, aliás, lamuriento. Somos infelizes porque assim queremos, em cada microcosmo predomina a chuva e, ocasionalmente, dá-se um cataclismo que nós, desgraçadas deidades, não ousamos suportar.
— Para o diabo tada a miséria! - reclamo, dirigindo-me porventura aos céus.
Tem chovido amiúde e bruscamente, ontem até me ofereceram granizo. A sina revela-se álgida, contudo simpática: pude, hoje, saciar-me com a rara neverusca matutina, um pouco mais branda que o orvalho, embora igualmente macia. Pode dizer-se que o tempo não está para mudar, manter-se-á entre o frio e o fresco, entre a chuva intensa e a tácita neve, até ao primeiro respirar da primavera. Felizmente já me aclimei, mas ainda me confrange o dilúvio intempestivo nas minhas suposições oníricas.
Entrementes, Selene me seduza, Calíope me encante, sopitarei, que nem brisa cálida, a pena e o elã.

Um novo dia brotou e fez-se luz na região. A natureza mostra-se serena, o astro do dia flameja calmamente e assume-se, portanto, lareira extensa. Não nos quer pardos, quer-nos primordialmente abrigados; é astro-pai.
Antagonicamente, são as nuvens céleres e reduzidas, recordando magníficos condores. Porque se apressam? Haverá talvez um monturo nas redondezas, próximo? Creio-me mimoseado pelo céu e os seus lacaios, mercê de tamanho triunfo demonstrado. Esfrego as palmas a imagino um porvir auspicioso reluzindo entre os aéreos veleiros, afastando os condores, rompendo a abóbada celeste. Imenso zelo me acaricia o nume. Estou feliz.
Há-de sempre surdir o esplendor quando mais necessitamos; ora não estarei simplesmente elocubrando. Aquando traço estas linhas, o ardor é tímido e contenta-me, vela-me pelos quatro cantos do mapa — perdoem-me, peço-vos — o meu nume anda sorrindo sobre o microcosmo.
De tempos a tempos, como tudo parece rematadamente plácido! Não se entrevê pinta de escuridão e todo o ser que vagueia é modesto, apresentável e risonho.
A verdade é um fenómeno indubitavelmente brilhante; verita lux mea!, deu-me hoje o sol e filigranas de primor… Fez-me querer a bruma. Tamanha paz exala a névoa: quiçá nos trará o desvendar um paraíso; e a lassa esperança, encobrindo a posterioridade, mantem-nos o cio tão ardente, a chama tão hirta, mais tensos os devaneios que o arcabouço! Cintilamos diminutamente à luz, microcosmos negros e abafados pelas estrelas, como se tornados os sonhos em fraqueza e temor.
Sonhar é rutilar, tornar a verdade num tapete usado, numa palavra, rebaixá-la elegantemente. No indivíduo débil se encontra a mais imperial das almas, oniricamente falando, um poderio capaz de ascender ao nível do nume, para circunvagar, nada mais; qual planger sorridente, observando o baixo supervácuo…
A vida sem sonho é análoga a um céu desprovido de estrelas. Porque haverá a minha deidade de ruar por vielas onde se ausentaram míseros lampiões, conquanto eles tornem a sua solidão um pouco mais soturna, mais solitária? Aquando cercado por negrume ou cerração, nenhum homem, não-débil, se deve crer só; porém, quer invada tal espaco um ágil vaga-lume, quer uma lamparina de brilho extenso, naturalmente incorrerá o sujeito numa solidão duplamente perceptível.
Ultimamente, medito o ato de sonhar e o devido gosto: sentir no talhe um abraço traseiro que nos ampara debalde. Há, nesses braços, um certo apego que, numa viradela, se deixa de sentir, dando lugar a uma aflição distante… O sorvedouro engole e raia, como o dia a noite, o vulto lípido da jaez sonhadora.
A verdade é o meu origma e o diabo veste alvura, pois sonhar se decidiu pecado fatal.