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Pressagiar a vida…



Pressagiar a vida como quem pressente que uma bailarina, por ser russa, bailará bem: ovação perante o arabesque… E um eterno balanço, imeritamente latejando, como o coração aviltado de um ébrio, num titmo decrescente e entorpecido pela insignificante plateia.
Ai, Selene, que é de mim à noite, sob o teu brilho, cercado por velas e livros, bebidas sórdidas e chá que não revitaliza senão recordações toleravelmente acres? Há-me numa rematada macebeia de vícios, na qual vulgarmente me sinto acolhido, conquanto nada preservado. Sei-me tão dócil, quase poeta — e escrevo-te, Selene, resignado.
Comto ter abandonado uma obra de Balzac fazem hoje meia dúzia de meses. Algo sobre uma mulher, Júlia, e um conde ao qual o seu anor resistia; um tanto de drama e bastante melancolia. A escrita notável de Balzac torna o livro atípico, apesar dos temas abordados. Entrementes, abracei Bulgakov e o seu génio presenteou-me a alma.
Encontro-me num daqueles momentos insólutos, nos quais um homeme se deleita mas facilmente com a simplicidade e gentileza de um malmequer, ao invés da extravagância e pulcritude de uma tulipa.

Esta minha prosa tem ar de contagiosa e aliteratada enfermidade, reside em cada frase uma reflexão que remonta à contemplação de fragmentos vítreos da magnum opus de Pessoa, de dolentes máximas russas, graciosas descrições à francesa. Ópios, aliás, diversas ampolas e frascos resguardando químicos diabólicos.
Escrevo como um miserável, contudo leio e medito nobremente; para mim a leitura é um exercício anímico e escrever um sintoma à feição de vomitar, ulterior a uma miríade de devaneios agitados: o próprio eu e tudo o que vive em mim.