Sinto-me errôneo, como se procurasse o elixir da vida e
esquecesse a sua fatalidade. Sinto-me diminuir face a esta
gigantesca vacuidade. Sinto-me como se não me sentisse e penso
como se pensasse poder sentir; afinal, quem pensa não sente e eu
penso fingindo sentimento. O vazio é tão amplo, que abrange
tudo… Até porque o todo se restringe facilmente numa palavra, ou
mesmo num pensamento só. Ao avistar qualquer ser alado a cruzar
o céu, penso: animal; essa categoria que, na mais grotesca das
simplicidades, abrange os seres irracionais na totalidade. Uma
totalidade, repita-se, una, vã, erma e um tanto enigmática para
quem ousa indagar.
Tal qual os animais, nós, Humano, reduzidos justamente àquilo
que somos. Contudo, o pragmatismo desta diferenciação não nos
saceia, tampouco nos contenta. Somos, sobretudo, infelizes.
Atrevo-me insolentemente a declarar-nos a personificação do
vazio, maioritariamente triste.
O Animal, per contra, incorpora a condescendência e a virtude
suprema: ser fiel ao instinto, nunca questionando.
O ser pensante, vago, foi assim erguido; no entanto, ao padecer,
somente vago.
E eu procedo, demoradamente, erro após erro, errando e nada
realmente sendo; carne, osso e pensamento superfluamente aceso;
humano no semblante, na figura e no vácuo, uma categoria de vida
nesta rocha sozinha.
O céu é ocasionalmente sedutor, mas sempre belo. A chuva amarga,
o vento inconstante, os astros pitorescos, as nuvens complexas e
uma nuance que une o mediterrâneo ao fulvo: filigranas mutáveis
da beleza celestial. Constate-se, em modo geral, que o belo nem
sempre é sedutor, mas o sedutor é sempre, de alguma maneira,
belo aos olhos do seduzido.
Estranhamente, aquando seduzido, sinto uma imensa vitalidade
que, por norma, se exterioriza numa realidade idílica e faz a
alma viver passionalmente. Uma recém-nascida paixão amamentada
pela relativa beleza do cenário.
O céu, ou qualquer coisa que proporcione sonhos, estará sempre
presente para me acudir e velar pelo vazio sóbrio da minha
essência — passivamente, aguardarei a sedução e contemplarei o
belo, diariamente metamórfico, até o interior se-me vagar por
completo.