Outra noite se passou à ventura; ora sonolento, ora levemente
acordado como um aracnídeo, cujo único predador é o sonhar.
Os primeiros raios solares precipitam em mim, refletindo a noite
turbolenta e um inevitável cansaço que, por pouquinho, roça o
limiar do esmorecimento. E, vagarosamente, vou soerguendo o
talhe. A minha lentidão assemelha-se à dos sujeitos vetustos,
deslembrados, sobretudo mórbidos; sinto o fluxo da senescência e
o repuxo veemente da lembrança mesclarem-se em volteios
petrificados que compõem a espiral da minha longevidade.
A vida assume-se-me, portanto, num vaivém e a morte numa paragem
fortuita. Entrementes, aquando o firmamento se-me deixa fruir
visualmente, jaz esta minha ociosidade e o amante desejo de
quedar. Vou caminhando, ostentando o prevalecer por ruelas onde
demoro. Se a rua é larga, sinto-me mais oco, sinto-me quase
imóvel, mas a alma vai-se, à mesma, objetivando o exílio
encapsulado dos meus sonhos no extramundo.
Aquele homem de cristal que vejo refletir nas vitrines das lojas
mudas, como é de cristal, reflete também, todavia uma luz
daquele corpo celeste e esférico que nos recorda o dia e, num
espetáculo momentâneo, faz da plateia o seu teatro e da
contraluz o vero resplandecer do sol. Ocioso espectador das
esdrúxulas metamorfoses da vida — eu —, perfido entre as
vicissitudes, que promovem vaivéns, da minha permanência. Eu,
que sou deveras finito, pacificamente instável como o universo
que se crê eterno; evanescerei debalde e em uníssono com a
ovação alquebrada de estalares da minha espiral caída… E
ofuscar-se-á o cristal…