Eis-me meditabundo, solenemente cadavérico e abruptamente
lastimando o chegar da lua que me superintende e vela pela
madrugada adentro. Eis-me acostumado a este cenário que parece
espelhar a mais sinistra das minhas emoções — e, para além de
espelhar, dissemina-a. Penso…: tamanho poderio noturnal! Quantos
indivíduos se desfazem em vénias e rogos que visam numes?, pari
passu, simplesmente o meu olhar a fitar o da lua. Quiçá seja ela
a minha divindade; aquela que me acompanha, ainda que somente se
mostre quando desentrapo a alma, essencialmente num leilão
tardio.
Selene comprou-me com o reluzir das suas roséolas no astro que
contemplo… Eis-me, de novo, extático e alentado pelos meandros
deste pranto; este arroubo de consciência que agora tanto
almejo. Paira sobre o meu coração uma imagem: eu, Selene, um
abraço despido e um eclipse que paliativamente impulsa o sono;
um aliviar de ser e não existir.