Devanear é ruar sem pés por alamedas vivas, por pontes faustosas
sobre infindos rios; é admitir em mim a correnteza una de um
mundo. Há silêncio em cada devaneio, angústias dulcissinantes em
cada recanto, desígnios obsoletos como resultado de uma
estagnação real.
Há-me sentado e imaginando tudo quanto não me é possível malear,
sofrendo cismas e raivas súbitas de tal jaez, que o martírio
corporal me parece menos lancinante. Sinto na alma a meia-luz
merencória do entardecer: o pouco viço perde-se à noite e o meu
ser fenece sob os béis visos de Selene. Escanzelado e
desentrapado, murcho no vértice mais negro do quarto, urro por
ti, Selene, que granjeias a mais profunda acédia na minha alma.
Empalideço aquando o teu olhar encaixa a trajetória do meu,
domam-me o cio e a monotonia sempre que te reviras. É
involuntária a tua luxúria, todavia malévolo o teu encanto.
Sonho em perecer a teus pés, sonho as mil vergastadas que mereço
por te financiar a paixão do Homem, mas jamais me desculparei a
ti, porquanto não me amas.
O simbolismo de cada sonho é de maior contribuição quando
ignorado pelo crente e abraçado pelo incrédulo. Para o cético, a
verdade é a luz reveladora da sua real crença. Há fulgor
suficiente em desacreditar que Selene apenas me aparece em
sonhos; reluz na alma o saber que tal se espelha no pensamento.
Cada devaneio meu, de ti, senão martírio, incita a disputa que é
a tua existência — o teu corpo iluminado pela minha mente
luminosa?, ora eu refletindo…