Um carro banal vagueava pausadamente pelo asfalto negro e cálido
das tardes estivais. Ao volante, um ser de jaez humana
equacionava o despiste, qualquer manobra cessante que o
retirasse do movimento numa brusca subtração existencial: esta
tripla metáfora do despistamento pululava furtivamente na sua
cabeça até que, ao perceber um regato oculto à berma destra,
todos os nervos se suprimiram numa sede terminante.
O vazio daquela hora despertava soledade nas profundezas do seu
âmago, um sentimento capaz de recriar melopeias dignas de
sacrifício. Por fim, houve-o acompanhado pela visonha da morte
que ciciava, entre estremeares guturais, o cântico à finitude
humana.
Já desfalecido, cabeça sanguinolenta, e deitado sobre as pedras
que orlavam o estreito riacho, o ser partia… Para onde? Uma
estranha questão… Direi que para o esquecimento, porquanto me
parece mais coerente e verdadeiro, todavia infeliz.
A melodia cessou, a ceifeira pronunciou as últimas palavras, ao
passo que retirava do peito amortecido a sua mão crua, e
anulou-se, assim, o sujeito.
A vida, oh, a vida… Continuou. Esta que não cessa após a morte,
pelo menos a de um só homem. E segue, portanto, lato sensu, o
rumo de uma embarcação desprovida de chusma, ulteriormente a uma
breve saudação de partida, e com projeções enevoadas à vista
humana.